Prosa que abraça
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Meu primeiro pensamento ao iniciar a leitura deste livro foi a trabalheira
que deve ter dado pra revisar. “Janice”, obra de estreia de Rafael Prado,
pela...
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Um "sim" para a vida!
"Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós
mesmos desconhecidos e não sem ter motivo. Nunca nós nos procuramos: como poderia,
então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: "onde estiver o teu
tesouro, aí estará também o teu coração". Nosso tesouro está onde se assentam as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre no caminho para elas como animais alados de nascimento e recolhedores do mel do espírito, nos preocupamos de coração propriamente de uma só coisa - de "levar para casa" algo. No que se refere, por demais, a vida, as denominadas "vivências" - quem de nós tem sequer suficiente seriedade para elas? Ou o suficiente tempo? Jamais temos prestado bem atenção "ao assunto": ocorre precisamente que não temos ali nosso coração - e nem sequer nosso ouvido! Antes bem, assim como um homem divinamente distraído e absorto a quem o sino acaba de estrondear fortemente os ouvidos com suas dozes batidas de meio-dia, e de súbito acorda e se pergunta "o que é que em realidade soou?", assim também nós abrimos às vezes, os ouvidos depois de ocorridas as coisas e perguntamos,surpreendidos e perplexos de tudo, "o que é que em realidade vivemos?, e também " quem somos nós realmente? e nos pomos a contar com atraso, como temos dito, as doze vibrantes campainhas de nossa vivência, de nossa vida, de nosso ser - ah! e nos equivocamos na conta... Necessariamente permanecemos estranhos a nós mesmos, não nos entendemos, temos que nos
confundir com outros, e, em nós servirá sempre a frase que disse "cada um é para si mesmo o mais distante" continuamos a nos considerar "homens do conhecimento"". (NIETZSCHE, Genealogia da Moral, Prólogo)
O despertar não acontece, ele vem acontecendo... Minha caminhada começou em 1975. Mal nasci e já tinha endereço, telefone, nome, sobrenome e um número num livro. Me habituei a me expressar de determinada forma, por inúmeras razões; falo deste jeito e não de outro, pelas mesmas inúmeras razões. Estudei, me formei e trabalho. Faço isso: trabalho. Vou e volto todos os dias - passo oito horas lá; me relaciono com as pessoas, faço compras, pago contas, passeio, me divirto, repito coisas que ouço... Aprendo, repasso, planejo, sonho, mas quantas vezes me pergunto: "o que sou?" O que de fato sou? Sou matéria, pele, músculos, ossos, nervos, cabelo... Quando me alimento, a comida passa da boca, pela umidade e aspereza da língua, para a garganta e depois é processada e defecada (na melhor das hipóteses). Sou corpo, sou movimento; muitas células nascem e morrem em mim; há um dinamismo, ainda que eu esteja deitada e inerte; cresço, envelheço e morro, aos segundos, como tudo o que é vivo.
Pois então, durante o tempo em que durar esta matéria orgânica que somos todos, talvez valha à pena se perguntar: "quem somos na realidade"?
Para responder, minimamente, a esta pergunta, é necessário ser corajoso, pois significativa parte do que somos/estamos, prende-se a uma moral. O que pensamos, sentimos, dizemos (isso então..), sofremos, está atrelado, costurado fortemente a uma moral. Ou seja, a regras, a imposições, repressão e mutilação do corpo; tudo o que é externo à nossa existência - esta matéria rica, dinâmica e vigorosa, por excelência! Adiantamos nossa morte, porque vivemos na morte! Sim, somos os responsáveis por frear o dinamismo do nosso corpo, nossa vitalidade!! "O medo é o pai da moral", bem disse Nietzsche, e nos entregamos à ele com extrema confiança, acreditando mesmo que ele nos protegerá, nos salvará! E assim, doutrinados que somos, viciados em cartilhas que nos "ensinem" a viver, quando - com muita sorte e empenho - nos deparamos com a vida, com a energia vital, queremos morrer, pois não a suportamos, porque não a entendemos!
Vivemos de estabelecer metas inatingíveis, porque a busca por algo que não seja o que somos nos faz parecer maiores, mais elevados, superiores... Há nobreza nisso, uma "alegria triste", segundo Deleuze. A castração de nossa capacidade de criar, de realizar algo de nossa potência é exercida pela moral, tão imanente dessa construção social na qual nos encontramos metidos. Uma potência realizada é uma possibilidade de produção de alegria, de estar em sintonia com nossa própria existência; é ser livre! Libertar-se deste concreto da moral é, pois, nossa única chance de "ser" no mundo!!
sábado, 17 de março de 2012
Poder e Potência
O caminho para o conhecimento é estrada sem volta repleta de desvios, atalhos, trechos que se encontram e se separam. Um passo dado em uma direção, te leva a outra, outras, e vamos nos “perdendo” de tal forma que não sabemos apontar de onde viemos, nem a partir de quais escolhas chegamos onde chegamos. E não paramos, seguimos. Há muito para ser visto, conhecido...
Estou finalizando minha dissertação de mestrado em ciências políticas e meu stricto tema, não tem nada de estrito... É bem lato!! Hobbes, Locke e Rousseau e o surgimento do Estado. Condição natural do homem, estado de sociedade, propriedade, liberdade, outorga de poder e por aí vai. Claro que os caminhos que me levaram à eles, também me levaram a outros. Claro, também, que não foram exatamente eles que me conduziram a outros caminhos e sim, outros caminhos... Por fim, somos uma colcha de retalhos, uma colagem nem sempre justaposta de tudo o que vem vindo desde quando nascemos e nos achamos metidos numa determinada circunscrição (filiação, família, cidade natal,amigos, hábitos...), ou seja, nesta paleta de combinações que nos representa e que por meio da qual nos representamos ao mundo. Somos plural!! Por isso não há o "eu". Somos várias vozes, vários retalhos numa combinação própria.
Nestes cruzamentos de caminhos, que no meu caso me levaram ao direito, à ciência política, à Hobbes, Locke e Rousseau... Tb conheci Foucault, que me "desviou" para outro caminho.
Familiarizada com a palavra poder, nada sabia sobre potência. E Foucault me levou a Deleuze (ou o contrário). Deleuze fala de Espinosa, que fala sobre potência, expressão da vitalidade de cada indivíduo; potência, potencial, possibilidades... "Efetuar algo de sua potência é sempre bom. O ruim é um grau menor de potência e este grau é o poder". Porque o poder separa as pessoas, pois se inscreve na moral, na culpa, na "dívida infinita" que temos que pagar, pois somos pecadores! Poder é exercer o controle; é negar o que somos; julgar o que é; "limpar", impor a ordem e excluir o que a ela se opõe ou dela se distingue. Percepção fantástica! Este entendimento acorda uma parte do meu cérebro, do meu corpo, que estava dormindo e me indica outros caminhos!
domingo, 4 de março de 2012
“Como dar um up grade na felicidade em 10 dias”
Vejo imagens... Pela internet, televisão, revistas, outdoors, lojas... Hoje tudo é foto, imagem, pose, glamour! E todo mundo é tão feliz, tão cheio de brilho, vitalidade! Ou será fotoshop?
Em uma fila de supermercado (daquelas de até 10 volumes) tenho tempo para pensar em coisas banais. Vejo as opções de periódicos... assim, en passant, e me dou conta de que todas as capas de revistas são iguais! I-GUAIS!!! Todas apresentam uma bela mulher, num belo corpo, com bela roupa e bem-sucedida - seja qual for o ramo (desde alguma “fruta” da estação até a tríade: atriz-modelo-cantora); dicas de como emagrecer MEGA rápido (em três meses, uma semana, três dias ou algumas horas) por razões variadas e absolutamente necessárias: “Perca peso para o verão, ou para o dia do casamento, ou para aquela festa de reencontro de ex-alunos, ou para melhorar a vida a dois, para melhorar sua imagem profissional...”; dicas de como “fisgar” um “bom-partido”, ensinando truques de beleza, sexo, comportamento... (devemos ser mocinhas comportadas, muito educadas e fazer tudo bem direitinho. Ah, e claro, sermos gostosas e safadas 'em quatro paredes'); dicas para descobrir o que “ele” espera de você (essa é demais!!! A revista responde o que “ele” espera de você!!!); e também dicas para entender o que você realmente quer da sua vida (em 10 itens selecionados pelos “famosos”) ahaahhahhahahehhehehehauauauauauauuauauauaua (desculpem, não agüentei! Essa foi forte!) Depois vêm as experiências de vida de anônimos, chamados de “comuns”, como nós. Sim, porque, segundo a classificação das revistas, só existem dois tipos de pessoas: As celebridades e as comuns. Nestes relatos estampam imagens de pessoas que eram obesas e perderam 40 quilos, seguindo apenas “uma dica fácil” dada pela revista, recheados por depoimentos a respeito da infância e adolescência infelizes e a confissão de que eram virgens até emagrecerem! (Ohhhhhh a revista salvou a mocinha do celibato!) E para finalizar... RECEITAS CASEIRAS!!! Hahahahahahhahahahahahhahahahahhaha Massacram com dietas e imagens de mulheres magras, esbeltas (e por isso mesmo, bem sucedidas e felizes) e depois... Te socam comida goela abaixo!!! Hahahahhahahahahahahhahahaha “para agradar o maridão”!!! Muito bom, muito bom!!
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Uma coisa é a lei, outra coisa é o resto!
Aqui no blog procuro me dedicar ao prazer de escrever sobre alguns de meus pensamentos, devaneios, medos, invenções. Gosto do som de algumas palavras, da leveza que me parecem ter. Adoro buscar melancolias dentro de mim, angústias, só para poder tentar falar a respeito. Chego a inventar sensações quando quero fazer uso de alguma expressão que talvez não vá combinar com outro contexto. Enfim, gosto do teatro das palavras! Da dramatização de um pensamento! Do exercício de poder ser outra pessoa, através do que escrevo, assim como o ator faz, ao interpretar uma personagem. Mas embora haja esse prazer todo no que costumo escrever aqui, grande e importante parte do que faço, fica de fora deste blog.
Trabalho como advogada e atendo à população mais carente da minha cidade. Há cinco anos tenho desenvolvido trabalhos em locais onde há grande violência, pobreza, desespero, medo e inúmeras dificuldades sociais, econômicas, de saúde... Meu trabalho é acolher, atender e, se possível, atenuar problemas. Difícil empreender todos os dias estas tarefas sem deixar de acreditar que, de alguma forma, sou capaz disso!
Ouço histórias o dia inteiro; relatos de vidas, de misérias e de muitos problemas; lamentos, lágrimas, pedidos, revoltas, mágoas, dor e esperança. São vozes que caminham comigo, mas não de maneira pesada e ruim. Nada disso! Elas ficam em mim para serem digeridas. Deste processo surgem idéias que às vezes geram soluções.
Me envolvo em cada uma delas, com cada uma das pessoas, inevitavelmente! E nem quero distanciamento de nada! “Manter uma distância segura”, nem sei o que é isso! Faço a advocacia que acredito, a única que sei fazer! E que se danem as convenções!
O trabalho é um constante laboratório pra mim. Me recuso a aceitar respostas prontas no Direito! Ah, faça-me o favor, estamos lidando com gente e gente muda! As necessidades mudam! O tempo muda! O Direito não pode ser tão engessado! Por esta razão mesmo, não posso aceitar só um caminho, só uma via! Há casos que pedem respostas alternativas, pedem mais do que o que já está pronto. Para estas situações, meus caros, o Direito fecha as portas.
Quando digo “O Direito” estou me referindo a tudo o que ele envolve e não só à lei, doutrina, jurisprudência, mas a tudo, todos os serviços, acessos, entendimentos...
E sabem o que vejo? Muitas pessoas não podem ingressar com suas demandas – e não ingressam mesmo – por NÃO TEREM TODA A DOCUMENTAÇÃO EXIGIDA! Mas aí vocês podem me questionar: Pô, mas sem provas, fica difícil, né? E QUEM FALOU EM PROVAS? Estou falando de documentos absurdos, desnecessários, de exigências infindáveis e excessivas. Resumo: Quem é pobre tá lascado!
Muitas das pessoas que atendo já passaram pela Defensoria Pública, mas não abriram seus processos e não resolveram suas pendengas porque a quantidade de documentos era impossível de se produzir!
Eu ignoro solenemente muitas dessas exigências e só fico com as fundamentais. Providenciei até um formulário para atestar a residência de quem não tem como prová-la - e a maioria não tem mesmo – e dou entrada com o que temos. No desenrolar do processo, vou vendo no que dá; empurro goela abaixo! O Ministério Público só falta me exigir a tampa da margarina consumida no início do relacionamento para comprovar uma união estável, por exemplo! E a “prova inequívoca” de que a criança no ventre da mãe é mesmo do suposto pai, em casos de alimentos gravídicos? Ahhhhh tenha dó!
Num desses casos, aliás, de exigência de prova inequívoca na gravidez, o processo demorou tanto que a mãe ganhou a criança. Daí ela levou o bebê a audiência e eu o coloquei sobre a mesa e disse ao juiz, em tom maroto: “Eis aí a prova inequívoca, Excelência!”. Pelo menos renderam gargalhadas e, claro, a pensão.
sábado, 29 de outubro de 2011
Diário do CRAS
Um dia no CRAS não é como um dia de trabalho qualquer.
Sexta-feira, chego para mais um dia de atendimento. Hoje estou no Siderlândia.
A equipe do CRAS é admirável! Taninha, a coordenadora, está de férias. Neste dia estamos em seis: A brilhante e competente psicóloga Renata; a guerreira Julinha, pau para toda obra; Tayane, orientadora do Projovem; Natália, assistente social vinda do Dom Bosco; nossa querida Celinha, que é apoio - e faz uma comida deliciosa - e eu.
Dia agitado!! Sempre são muitos os atendimentos desta regional. Nesta sexta, porém, fiz algo atípico: Fui a uma visita domiciliar, a chamada "busca ativa". Visitei, juntamente com a psicóloga Renata, a casa humílima de uma usuária, que reside com seus dois filhos e o marido. Sua situação: Mãe de um bebê de três meses que tem peso de feto. A criança é incrivelmente pequena, quase impossível pegá-la no colo! O pai trabalha, mas é alcoolista e seu dinheiro - o único da casa - vai todo para o bar. A mãe, moça jovem, dona de casa, não reconhece a violência em que vive e diz estar bem. Sua preocupação é apenas o alimento da filha, de três meses e do filho, de 1 ano. O CRAS juntamente com o PSF (Posto de Saúde da Família) estão fornecendo o NAM que a criança precisa tomar, já que a mãe não conseguiu amamentá-la por causa de remédios fortes prescritos em função de outros problemas de saúde. O pai, num dia, bêbado, tomou o NAM da filha que por ter ficado sem alimentação quase morreu. Era final de semana e não havia ninguem no CRAS para repor o NAM perdido. Desde então, a equipe fornece o NAM de acordo com a necessidade, e vão entregando um de cada vez.
A criança está sendo acompanhada pela equipe do Hospital do Retiro que foi quem a encaminhou para o CRAS - Chamado "trabalho em rede", previsão do SUAS (Sistema ünico da Assistência Social).
Minha orientação: Vamos pedir alimentos ao pai. Mesmo vivendo sob o mesmo teto da criança e da mãe há previsão legal. Em condições extremas, como as que lidamos, toda ajuda parece nada! Estamos enxugando gelo! Mas se o pai cumprir a sentença, já estará bom. Caso contrário poderá ser preso, o que neste caso causaria mais problemas. Enfim...
Antes que questionem - quem acaso estiver lendo - esta família não pode ser incluída no programa Bolsa Família, pois a renda per capita ultrapassa o máximo exigido. O pai é alcoolista, mas recebe seguro desemprego (tinha vínculo empregatício) e mais R$150,00 por semana, do trabalho que faz agora.
O porque da visita domiciliar? Bem, a psicóloga Renata que acompanha a mãe e as crianças, encaminhou a usuária para mim, mas ela não foi por duas vezes e por isso fomos até ela. Busca ativa!
Nossa pretensão surtiu efeito: A mãe e uma vizinha, em situação similar, foram ao CRAS e eu as atendi. Conversei calmamente com as duas, que inicialmente estavam arredias. Na conversa, a pouca idade de ambas - as duas poderiam ser minhas filhas - revelou uma vida sofrida, de grandes dificuldades e desamparo. Atendimento encerrado, nos despedimos. Na semana que vem irão me entregar os documentos que lhes pedi. Primeiro passo, suado, foi dado. Agora é aguardar.
À tarde fui a outra visita domiciliar, agora solicitada pela Secretaria. Bairro: Padre Josimo - ao qual carinhosamente chamamos "Padre". A equipe era: Minha querida parceira Beth, da CAPED; Cintia, da APADEM; Jaqueline, assistente social do CREAS, a coordenadora do CRAS Padre Josimo e eu. Conhecemos uma mãe de seis filhos, sendo três portadores de alguma deficiência física e/ou mental. Moram todos em três minúsculos cômodos, quentes, insalubres. O pai das crianças não mora na casa, vem esporadicamente. Possui uma parte exclusiva na casa - um cômodo com banheiro em melhores condições - sem acesso para dentro, onde ficam as crianças e a mãe. O casal não vive mais maritalmente, mas ele ajuda, quando vem. De resto a mãe e as crianças vivem com um BPC (LOAS), verdurão e cesta básica dados pelo CRAS.
Nosso entendimento: Vamos buscar um acordo entre os pais das crianças e melhorar as condições da casa com algumas obras necessárias. Tentarei ajustar uma pensão alimentícia para os filhos.
Já são 16h quando volto para a Secretaria. Reflito um pouco mais sobre o que vi, ouvi, senti. Organizo a papelada, libero mais umas petições, respondo a alguns despachos. Passo para meus assistentes a pauta do dia e da semana. Organizamos nossas agendas. Eles me contam como foi o dia e quais são as pendências. Separo a pasta do próximo atendimento. Tenho audiência pra fazer na segunda... Eles vão embora. Fico ainda um pouco mais. Sou chamada ao Gabinete, mais um último caso. Agora apenas uma consultoria rápida. O caso é criminal. Dou as informações e me vou.
Mais um dia cumprido. Me sinto cansada, mas motivada. Amo o que faço e faço com amor. Acredito! É possível seguir, mudar algo, tocar algo. Enxugo gelo sim, mas existem trocas. Hoje troquei um sorriso com a mãe do Siderlândia, nos abraçamos. A pequenina bebezinha era minúscula, mas sorriu bonito pra mim. No Padre, a mãe dos seis filhos nos recebeu com satisfação. Sentiu-se amparada, e estava. Éramos um batalhão de mulheres! Nos entendemos como mulheres. Aquela dupla, tripla, jornada, o pai trabalhando fora, distante... Ausente! Um dos seis meninos chegava da escola, naquele momento. Olhou para a mãe e disse: "Vou tirar a mochila, tá mãe?". Esta história é, em parte, de todas nós!! Estávamos em casa, entre mulheres...
Sexta-feira, chego para mais um dia de atendimento. Hoje estou no Siderlândia.
A equipe do CRAS é admirável! Taninha, a coordenadora, está de férias. Neste dia estamos em seis: A brilhante e competente psicóloga Renata; a guerreira Julinha, pau para toda obra; Tayane, orientadora do Projovem; Natália, assistente social vinda do Dom Bosco; nossa querida Celinha, que é apoio - e faz uma comida deliciosa - e eu.
Dia agitado!! Sempre são muitos os atendimentos desta regional. Nesta sexta, porém, fiz algo atípico: Fui a uma visita domiciliar, a chamada "busca ativa". Visitei, juntamente com a psicóloga Renata, a casa humílima de uma usuária, que reside com seus dois filhos e o marido. Sua situação: Mãe de um bebê de três meses que tem peso de feto. A criança é incrivelmente pequena, quase impossível pegá-la no colo! O pai trabalha, mas é alcoolista e seu dinheiro - o único da casa - vai todo para o bar. A mãe, moça jovem, dona de casa, não reconhece a violência em que vive e diz estar bem. Sua preocupação é apenas o alimento da filha, de três meses e do filho, de 1 ano. O CRAS juntamente com o PSF (Posto de Saúde da Família) estão fornecendo o NAM que a criança precisa tomar, já que a mãe não conseguiu amamentá-la por causa de remédios fortes prescritos em função de outros problemas de saúde. O pai, num dia, bêbado, tomou o NAM da filha que por ter ficado sem alimentação quase morreu. Era final de semana e não havia ninguem no CRAS para repor o NAM perdido. Desde então, a equipe fornece o NAM de acordo com a necessidade, e vão entregando um de cada vez.
A criança está sendo acompanhada pela equipe do Hospital do Retiro que foi quem a encaminhou para o CRAS - Chamado "trabalho em rede", previsão do SUAS (Sistema ünico da Assistência Social).
Minha orientação: Vamos pedir alimentos ao pai. Mesmo vivendo sob o mesmo teto da criança e da mãe há previsão legal. Em condições extremas, como as que lidamos, toda ajuda parece nada! Estamos enxugando gelo! Mas se o pai cumprir a sentença, já estará bom. Caso contrário poderá ser preso, o que neste caso causaria mais problemas. Enfim...
Antes que questionem - quem acaso estiver lendo - esta família não pode ser incluída no programa Bolsa Família, pois a renda per capita ultrapassa o máximo exigido. O pai é alcoolista, mas recebe seguro desemprego (tinha vínculo empregatício) e mais R$150,00 por semana, do trabalho que faz agora.
O porque da visita domiciliar? Bem, a psicóloga Renata que acompanha a mãe e as crianças, encaminhou a usuária para mim, mas ela não foi por duas vezes e por isso fomos até ela. Busca ativa!
Nossa pretensão surtiu efeito: A mãe e uma vizinha, em situação similar, foram ao CRAS e eu as atendi. Conversei calmamente com as duas, que inicialmente estavam arredias. Na conversa, a pouca idade de ambas - as duas poderiam ser minhas filhas - revelou uma vida sofrida, de grandes dificuldades e desamparo. Atendimento encerrado, nos despedimos. Na semana que vem irão me entregar os documentos que lhes pedi. Primeiro passo, suado, foi dado. Agora é aguardar.
À tarde fui a outra visita domiciliar, agora solicitada pela Secretaria. Bairro: Padre Josimo - ao qual carinhosamente chamamos "Padre". A equipe era: Minha querida parceira Beth, da CAPED; Cintia, da APADEM; Jaqueline, assistente social do CREAS, a coordenadora do CRAS Padre Josimo e eu. Conhecemos uma mãe de seis filhos, sendo três portadores de alguma deficiência física e/ou mental. Moram todos em três minúsculos cômodos, quentes, insalubres. O pai das crianças não mora na casa, vem esporadicamente. Possui uma parte exclusiva na casa - um cômodo com banheiro em melhores condições - sem acesso para dentro, onde ficam as crianças e a mãe. O casal não vive mais maritalmente, mas ele ajuda, quando vem. De resto a mãe e as crianças vivem com um BPC (LOAS), verdurão e cesta básica dados pelo CRAS.
Nosso entendimento: Vamos buscar um acordo entre os pais das crianças e melhorar as condições da casa com algumas obras necessárias. Tentarei ajustar uma pensão alimentícia para os filhos.
Já são 16h quando volto para a Secretaria. Reflito um pouco mais sobre o que vi, ouvi, senti. Organizo a papelada, libero mais umas petições, respondo a alguns despachos. Passo para meus assistentes a pauta do dia e da semana. Organizamos nossas agendas. Eles me contam como foi o dia e quais são as pendências. Separo a pasta do próximo atendimento. Tenho audiência pra fazer na segunda... Eles vão embora. Fico ainda um pouco mais. Sou chamada ao Gabinete, mais um último caso. Agora apenas uma consultoria rápida. O caso é criminal. Dou as informações e me vou.
Mais um dia cumprido. Me sinto cansada, mas motivada. Amo o que faço e faço com amor. Acredito! É possível seguir, mudar algo, tocar algo. Enxugo gelo sim, mas existem trocas. Hoje troquei um sorriso com a mãe do Siderlândia, nos abraçamos. A pequenina bebezinha era minúscula, mas sorriu bonito pra mim. No Padre, a mãe dos seis filhos nos recebeu com satisfação. Sentiu-se amparada, e estava. Éramos um batalhão de mulheres! Nos entendemos como mulheres. Aquela dupla, tripla, jornada, o pai trabalhando fora, distante... Ausente! Um dos seis meninos chegava da escola, naquele momento. Olhou para a mãe e disse: "Vou tirar a mochila, tá mãe?". Esta história é, em parte, de todas nós!! Estávamos em casa, entre mulheres...
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Parecia Aero, mas era Açude!
O ponto de ônibus é um lugar interessante. Embora existam muitos pelas cidades, e sempre com muitas pessoas amontoadas, é um espaço totalmente invisível para quem tem carro. Quase um não-lugar! Vemos todo mundo passar, mas ninguém nos vê ficar!
É comum nas embaraçosas - e chatas - conversas de ponto de ônibus perguntarmos ao nosso companheiro de cativeiro, qual o ônibus que ele espera. Aliás, é daí que as conversas geralmente começam. E quem conhece o circuito sabe que existem alguns ônibus que são bem, bem mais demorados do que outros; o que pode nos colocar em vantagem ou desvantagem perante os outros confinados. Eu, por exemplo, espero o Aero. Sim, este é o termo utilizado por nós: “espero”. Falamos como gestantes! E o Aero é muuuuuuito famoso pela sua clássica demora. É que existem linhas que temporariamente podem estar mais lentas, por estarem circulando com frota reduzida, em períodos de férias escolares, por exemplo. Mas este não é o caso do Aero. O Aero demora muito há décadas! Já conheci senhoras bem idosas que me disseram que quando faziam o trajeto, há muitos e muitos anos, ele já demorava muito. Entendeu? Por isso quando digo que espero o Aero, recebo sempre um olhar de piedade e às vezes uma palavra de incentivo: “Olha, desde que estou aqui, ele não passou”. Claro que nem ouso perguntar a quanto tempo a pessoa está esperando, que é para me manter firme e crente. Quem costuma dizer aquela frase: “quem espera sempre alcança”, não depende de ônibus! No caso do Aero, então, é quem espera, sempre espera mais um pouco!
Tenho, infelizmente, longa intimidade com este assunto, pois apesar de ter tirado a minha carteira de motorista há 14 anos, nunca dirigi mesmo, de verdade, no dia-a-dia. E embora não tenha desistido deste intento, ainda ando de ônibus e continuo invisível. Sujeita à chuva, à lama, quando os ônibus freiam em cima das poças, à espera, às conversas insuportáveis, ao frio, ao calor, enfim... Desgraça!!
O universo de quem vive dessa espera é tão limitado que, veja bem, ficamos completamente felizes e agradecemos aos céus, quando ele, o dito cujo, aparece. Soltamos gritinhos!!! “Ai, graças a Deus, Aero!”. É como ser resgatado do purgatório! Dá um alívio! Sem contar os inúmeros tiques que desenvolvemos. Um deles é a pescoçada! Sim, aquele hábito de ficar se levantando ou erguendo o pescoço para frente a fim de vermos melhor o ônibus que vem vindo. Chegamos a decorar todos os tipos de ônibus, cores, letreiros, intensidade de luz, para, mesmo de longe, termos condição de identificá-los e nos posicionarmos no melhor local para adentrá-los. O nome “Aero”, por exemplo, vem escrito bem no meio do letreiro, com luz branca, ao invés da amarela. São sinais que vejo de longe! Porém, existe o Açude, que também é um nome pequeno, que começa com “A” e que recentemente apareceu com a mesma configuração. Daí, como ele passa beeeeem mais vezes do que o Aero gasto muitas pescoçadas em vão e sempre chego em casa com dores. Vai vendo... Além desse tique desenvolvemos também transtorno obsessivo compulsivo - TOC. Quando vejo o Aero, em situações em que não estou no ponto à sua espera, tenho vontade de sair atrás dele. Por exemplo, quando estou num barzinho com meu namorado, ou no carro dele, vejo o Aero passar e sinto como se o tivesse perdido. Terrível, mas verdadeiro.
Para quem tem carro e quase nunca, ou mesmo nunca, andou de ônibus os pontos de ônibus são nada. Nunca param para pensar neles ou em quem está neles e provavelmente acreditam que, caso precisassem, um dia quem sabe, enfrentariam isso fácil, que é uma reclamação idiota. Por isso, em sua maioria, são tão sem educação com os que esperam, jogando água/lama em quem não tem para onde correr, negando a preferência para atravessar a rua...
Então vai aí uma dica para você, motorizado sem coração. Quando puder oferecer uma carona a um amigo, OFEREÇA!! Por mais que te dê algum trabalho, que te faça perder uns minutinhos, isso não é nada perto de quem espera 1h e 30min num ponto, parado. Preste mais atenção à sua volta e resgate um amigo do purgatório! Isso vale também para parentes e vizinhos, que são os campeões do ranking.
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